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Estela com escrita do Sudoeste Tavilhão I, do Monte da Portela (Loulé)

As escritas antigas são o registo da voz do passado que nos aproxima dos seus pensamentos e modos de vida e resultam da necessidade de contar, registar factos e transmitir ideias. Nesta altura, ler e escrever estaria acessível a muito poucos, mas o valor simbólico de uma “pedra com signos” era evidente para a restante comunidade.

A influência das culturas do Mediterrâneo oriental chegou ao litoral português onde, com a troca de produtos, vem a escrita. Este saber foi transformado pelas populações da actual Andaluzia, Baixo Alentejo e Algarve num sistema gráfico a partir de signos de origem fenícia para transcrever a(s) língua(s) desta região que por certo seriam muito diferentes. Esta apropriação criou algo de diferente, adoptando os signos existentes e o seu valor fonético, ou inventando-se letras. A mais antiga escrita do ocidente peninsular surge num local de origem incerta que, pela concentração de achados, terá ocorrido na área do Sudoeste Peninsular há mais de 2500 anos e durou pouco mais do que 500 anos.

É nesta região que os antigos autores da antiguidade clássica referem a existência de gente especialmente culta e desenvolvida. Segundo Estrabão (historiador e geógrafo grego do século I d.C.) “possuem uma gramática e escritos de antiga memória, poemas e leis em verso” que associa ao povo de Tartessos. Trata-se de uma escrita de início chamada de “escrita turdetânica”, “tartéssica”, ou “escrita do Algarve” mas que hoje está definida como sendo a “escrita do Sudoeste”.

Pela sua raridade, as estelas com escrita do Sudoeste das quais existem menos de cem exemplares, assumem uma importância acrescida. Habitualmente são blocos pétreos de grandes dimensões, com uma parte destinada a ser fixada no solo e outra que acolhia o texto gravado na pedra. O texto era habitualmente enquadrado por linhas paralelas numa única sequência, em forma de U invertido, na direcção contrária à nossa, ou seja, da direita para a esquerda (idêntico ao árabe). Mas se hoje conseguimos ler esta escrita, o grande mistério reside no facto de a não sabermos traduzir, ainda que sejam várias as propostas nesse sentido.

Um dos exemplares desta escrita encontra-se no Museu Municipal de Faro. José Rosa Madeira (1891-1941), relojoeiro natural do Ameixial (Loulé), foi o responsável pela recolha da epígrafe do Monte da Portela, que depois foi divulgada pelo arqueólogo José Leite de Vasconcellos, quando a viu no Museu Municipal de Faro em 1933. Esta faz parte de um conjunto de doze estelas com escrita do Sudoeste localizadas numa área concentrada nos limites dos concelhos de Loulé e de Almodôvar.

Este monumento epigráfico foi associado à necrópole chamada do Tavilhão (Almodôvar), na margem esquerda da Ribeira do Vascão de onde foi recolhida uma outra estela. A sua designação, Tavilhão I, persistiu até hoje, apesar do local da sua descoberta – conforme relatou Leite de Vasconcellos – ser o Monte da Portela (Loulé), onde existem ainda notícias orais de outras estelas com escrita do Sudoeste.

A estela deveria ser originalmente um bloco rectangular, contando actualmente com uma altura de cerca de 1m. O seu campo epigráfico é composto por uma única linha circular e os signos, com cerca de 10 cm, localizam-se numa das faces, sendo delimitados por cartelas. Nela lemos: ]onlinbºoireanbªa[. E é nestes signos que permanece o mistério da sua decifração e da mensagem que estes antigos povos do Sul nos deixaram …

Pedro Barros, Samuel Melro e Susana Estrela

Estela do Monte da Portela (a partir de Vasconcellos, 1934; Beirão, 1986; Untermann, 1997; fotografia de Hélio Ramos)

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